quarta-feira, 15 de maio de 2013

Agarrando-se à Alma

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A porta do inferno abre-se de repente, um forte vento nos sopra para trás, com a violência do deslocamento de ar de uma enorme explosão, uma alta porta de ferro de cadeia fecha-se com estrondo atrás de nós. Estamos trancados numa descida súbita e difícil.

A escada de descida não aguenta nosso peso. Os degraus vão se quebrando. Nós gritamos. Ninguém neste mundo nos ouve. Ninguém vem. E nós caímos de cabeça, com as partes mais tenras do espírito e da alma deste mundo rasgando-se nos penhascos mais dilacerantes.

Essa dura descida desafia toda a ternura em nós. Ela pode nos levar a resmungar que somente nos tornando duros e amargos conseguiremos transpor essa situação. Descobrimos que estamos não só numa luta para voltar à vida, mas numa batalha para manter nossa alma enraizada em nossos maiores dons; na proximidade da Origem sem origem, da força criativa e da inocência.

Lutamos para não entregar nossas naturezas tenras. Lutamos para não nos tornarmos corpos meio vivo, congelado, incapaz de perdoar, de doar e de sentir, que rejeita o amor e todos os seus potenciais, que em vez disso guia com o coração do medo, o olho da raiva, a mão do controle ou todas as opções.

E assim não somos "atraídos"; somos, sim, arrastados por uma escuridão, longa, intensa, solitária. Atraídos é uma palavra delicada demais. Somos arrastados por espaços pequenos demais para repousar o corpo totalmente relaxado, forçados a percorrer com os pés empolados distâncias vastas demais para ser cobertas num único dia, e muitas vezes sem nenhum mapa nítido para nos mostrar como sair dali.

Avançamos trôpegos, em silêncio, aguentando os golpes, por fim nem sequer tentando nos defender. Cambaleamos, caímos, jazemos inertes, quase mortos de coração e mente, muito feridos pelos sangramentos do espírito.

Entretanto, nessa hora, de algum modo, alguém de carne e osso ou uma força do espírito se estende e impõe uma mão sobre nós, com leveza, para nós sabermos que alguém, ou Alguém, está conosco. Talvez essa pessoa, essa criatura, essa força angelical permaneça  conosco, sem permitir que fiquemos sós numa hora de tanta dor.

Mas talvez seja apenas um único toque momentâneo, e depois essa pessoa, essa força, essa criatura da Natureza nos deixe, e voltemos a estar sós. Contudo, naquele único toque de beleza que elas nos concederam encontramos forte alimento. Racionamos essa porção repetida vezes em pedaços minúsculos, lembrando-nos do breve toque que tanto nos confortou em nossas horas de agonia, em nossos momentos indefesos. E avançamos, apesar de sentirmos que de algum modo fomos feridos mortalmente.

E, nos dias e meses pela frente, aquele momento breve, mas memorável, de ser tocado por amor e com amor nos ajuda a seguir em frente.

Quem quer que venha nos acudir em nossos momentos de agonia, espiritual ou humana, é abençoado ... e nós somos irradiados pela sua bondade. O suficiente para de algum modo ganhar forças, continuar a encontrar nosso caminho adiante, e com o tempo a saída, uma subida de volta a uma vida normal a céu aberto. Com cicatrizes, sim, mas muitas vezes até mesmo mais alertas do que antes para a alma e o espírito, para o gênio criativo ... sempre sábios com e por nossas cicatrizes.


 Clarissa Pinkola Estés - Libertem a Mulher Forte