segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Traduzir-se!

Uma parte de mim é todo mundo:
outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão:
outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera:
outra parte delira.

Uma parte de mim almoça e janta:
outra parte se espanta.
Uma parte de mim é permanente:
outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem:
outra parte, linguagem.
Traduzir uma parte na outra parte
— que é uma questão de vida ou morte —
será arte?


Esse é o poema Traduzir-se de Ferreira Gullar. Ele mostra a divisão interna, a dicotomia que parece persistir dentro de cada um de nós. Emoções diferentes, pensamentos distintos, vontades contrastantes… o que fazer com isso? Para onde ir? Sigo a emoção ou o pensamento? Falo ou me calo? Espero ou vou para a ação?
Na brincadeira de pular corda é preciso encontrar o momento certo para entrar, se não a corda baterá em você. E fica-se naquele movimento com o corpo, vai não vai, é agora? xi, passou! Ora erra, ora acerta. Quanto maior a insegurança e a dúvida, maior a chance de entrar no momento errado. A segurança só vem com a aceitação do ritmo, perceber como o movimento acontece e incorporar-se a ele, sem medo, apenas respeitando-o e seguindo-o.
O mesmo vale para essa divisão interna, para esses lados nossos que parecem nos levar para polos opostos, que parecem nos rachar ao meio. Aceitar essa divisão, essas diferenças que nos compõem, sem fortalecer um lado e enfraquecer o outro. Integrando essa diferença nos tornamos mais potentes, unindo o que parece impossível, sentimos segurança. A nossa força em ser e atuar no mundo começa com a comunhão daquilo que está cingido em nós.
Antes de tomar uma decisão, seja de agir ou de esperar, entre em contato com o que está vivo dentro de você. Não importa que sejam medos, frustrações, raiva. As chamadas emoções negativas também nos habitam e não podemos renegá-las, pelo contrário, quando aceitamos que elas existem, nos reequilibramos. Elas estão nos enviando mensagens que precisam ser ouvidas e que contribuem para os passos que daremos; aceitando nossa insegurança e medo, escolheremos caminhos que não nos ameaçam, desprezando-os traçamos caminhos tortuosos ou nos paralisamos.

- Magda Kumara -